Tentei conseguir uma entrevista com o escritor-cineasta-londrinense RODRIGO GROTA, meu egrégio padrinho, mas ele se recusou a responder às minhas perguntas. Só me restou então entrevistar o irmão gêmeo dele, o também escritor-cineasta-londrinense ARRIGO GROTA (foto), que reside atualmente em Sabáudia.
FILISTEU — A semelhança entre vocês dois vai além da física?
ARRIGO GROTA — Eu nem acho que a gente se parece fisicamente, embora tecnicamente sejamos gêmeos idênticos perfeitos. Somos diferentes em tudo. Pra começar, ele é o irmão gêmeo, eu sou o irmão gênio.
FILISTEU — Mas os gêmeos têm reputação de serem muito unidos.
ARRIGO GROTA — Não, pelo contrário. Já no útero da nossa mãe a gente brigava por espaço. Crescemos brigando. O Rodrigo sempre teve inveja do meu sucesso com as mulheres. Londrina não era grande o bastante para os dois, então fui para Sabáudia.
FILISTEU — Mas vocês seguiram até o mesmo ofício.
ARRIGO GROTA — Sim, mas por motivos totalmente diversos. Eu faço literatura e cinema porque sou um gênio, o Rodrigo faz para conseguir garotas.
FILISTEU — Fale sobre sua literatura.
ARRIGO GROTA — Desde os catorze anos escrevo um livro por ano. Estou agora com vinte e quatro.
FILISTEU — Antes desta entrevista procurei seus 10 livros exaustivamente em todas as 3 livrarias de Londrina, e não encontrei nenhum.
ARRIGO GROTA — Eu disse que escrevi 10 livros, não que publiquei algum. Não sou um escritor comercial. Quando escrevo um livro, o faço para minha satisfação e realização pessoais, não para que outros o folheiem e digam com cara de idiotas: o que será que o autor quis dizer com isso?
FILISTEU — Sente o senhor algum desconforto com o rótulo “escritor-e-cineasta”, como tratando-se de um termo híbrido e de resultados frankensteinianos, semelhante a “modelo-e-atriz”, por exemplo?
ARRIGO GROTA — Não mais do que o senhor com os rótulos de entrevistador-pentelho ou rolha-de-poço.
FILISTEU — O senhor está preparando algum outro livro? Se está, pode falar a respeito dele?
ARRIGO GROTA — Estou, sim. O Rodrigo, que vive ansioso para que eu me rebaixe como ele fez, me convenceu a mandar os originais a um editor judeu amigo dele, mas felizmente este o recusou. O título é: “Roube este Livro”.
FILISTEU — Acho que posso entender por que ele foi recusado.
ARRIGO GROTA — Que me importa o que você entende ou deixa de entender? Pensei que o entrevistado aqui fosse eu!
FILISTEU — Sim, claro, me desculpe. Não acredita o senhor na afirmação atribuída ao poeta alemão Eingebildet Jemand de que a publicação do segundo livro é o triunfo da esperança sobre a experiência?
ARRIGO GROTA — Eingebildet Jemand nunca disse isso. Eingebildet Jemand nunca disse coisa alguma, aliás, já que esse nome, como você sabe muito bem, significa “alguém imaginário”. Você vai parar com essas pegadinhas idiotas ou eu vou ter que criar para o meu próximo filme o personagem de um entrevistador gordo e veado chamado Filisteu?
FILISTEU — Bem lembrado: por que o senhor não fala sobre os seus filmes?
ARRIGO GROTA — Posso dizer que você não vai vê-los em cartaz tão cedo nos 4 cinemas de Londrina.
FILISTEU — Ah, entendo, o senhor também os faz só para si próprio, não é?
ARRIGO GROTA — Não. Ao contrário da minha literatura, meus filmes são estritamente comerciais. Acontece que ainda não os rodei. Eles estão na minha cabeça. Exceto pelo primeiro, que já está em fase de produção.
FILISTEU — Fale um pouco sobre ele.
ARRIGO GROTA — Será um documentário chamado “Sabáudia em Três Movimentos”, e tratará da história da cidade nos seus três principais eventos: sua fundação pelos irmãos Amadeus e Odeiadeus, a Paixão de Mestre Suri, e a descoberta da roda em Sabáudia, há quatro anos. A música tema do filme será cantada pelo saltitante Padre Martelo, da Igreja de São Zero Apóstolo.
FILISTEU — Suas influências cinematográficas são as mesmas do seu irmão Rodrigo? Kubrick, Fellini, Bergman...
ARRIGO GROTA — Deus me livre! Só os nomes desses caras já me dão sono. Meus mestres são Walt Disney e Steven Spielberg.
FILISTEU — Qual o seu filme favorito?
ARRIGO GROTA — O filme que me incentivou a ser cineasta foi “Free Willy”.
FILISTEU — O senhor dá licença para eu ir ao banheiro vomitar e já volto?
ARRIGO GROTA — Esta entrevista já deu mesmo o que tinha que dar.