A COISA NO UMBRAL

Entrevista com Rodrigo Grota

Eu havia pedido uma entrevista ao egrégio Rodrigo Grota, o Kubrick de Londrina. Ele respondeu que tinha mais o que fazer e não podia ficar perdendo tempo dando entrevista para um blog que ninguém lê. No entanto, depois que publiquei a entrevista com o Arrigo Grota, seu irmão gêmeo, subitamente o Rodrigo mudou de idéia, nem imagino por quê, e concordou em responder às minhas capciosas perguntas.


Rodrigo Grota ganhando seu primeiro Oscar pelo documentário “Como ser um bom jornalista e não ser uma boa pessoa”

FILISTEU — Sente o senhor algum desconforto com o rótulo “escritor-e-cineasta”, como tratando-se de um termo híbrido e de resultados frankensteinianos, semelhante a “modelo-e-atriz”, por exemplo?

RODRIGO — Em verdade, só me reconheço nesse passatempo de escritor-e-cineasta pois tenho uma tendência equivocada de buscar o inconsciente. Escrevo e filmo por não ser aristocrático. Inserido à elite, beberia.

FILISTEU — Uma vez que co-autores de um livro são normalmente apresentados em ordem alfabética, a fim de evitar melindres de precedência, como pôde o senhor submeter-se à humilhante indignidade de ter o seu nome e seus textos, no livro, apresentados após os do Sr. Tanga?



RODRIGO — Cabe ao melhor escriba abrir o livro com seus percursos ortográficos. A minha despretensiosa viagem só poderia ser um relaxamento após inebriante discurso do sr. Tanga.

FILISTEU — O senhor está preparando algum outro livro? Se está, pode falar a respeito dele? Não acredita o senhor na afirmação atribuída ao poeta alemão Eingebildet Jemand de que a publicação do segundo livro é o triunfo da esperança sobre a experiência?

RODRIGO — O poeta alemão Eingebildet Jemand torna-se mais verdadeiro quando descobrimos a sua origem ficcional, nos alertando que a preparação de um segundo livro nunca deverá ser consciente. Só se reconhece que uma obra está sendo formada quando o autor se vê distante do mundo e em busca do mais secreto que há em si mesmo.


Cena do filme “Amor em Três Movimentos”, de R. Grota

FILISTEU — Ao colocar nomes de amigos em seus personagens erudito-existencialistas, o senhor acreditou poder enganar alguém, já que é tão óbvio que todos eles são o senhor mesmo?

RODRIGO — Foi uma tentativa de agregar mais leitores, já que eles reconheceriam ao menos um nome nas histórias.

FILISTEU — O que o senhor tem a dizer sobre a opinião do Sr. Paulo Schmidt de que a sua Entrevista com Deus é tão reverente com a divindade, que mais parece retirada ipsis litteris do Catequismo Católico, embora o seu livro tenha sido incluído no Index de livros proibidos do Vaticano e o aiatolá Khamenei tenha publicamente prometido o Paraíso a qualquer maomentano que matar o senhor e o Sr. Tanga?


Queima do livro “Como ser Cult” em Teerã

RODRIGO — O hebreu Paulo Schmidt nutre uma relação masoquista com o criador entre os criadores. Ele acredita que deus seja o nada infinito. Assim, qualquer conversa com o absoluto é negligenciada por nosso amigo judeu. Observando Marx, Freud e Einstein, percebemos que não há nada muito perspicaz no universo de A Hebraica.

FILISTEU — Qual foi sua reação ao saber que versões piratas obscenas do seu livro têm circulado em Sabáudia, ameaçando-lhe as chances de classificação nos Prêmios Jabuti e Camões, para não falar do Nobel?


Versão pirata do livro do Grota

RODRIGO — Sabáudia é o ponto de partida de todas as minhas histórias. Mesmo oculta, ela está em cada linha traçada. Sinto-me lisonjeado que os cidadãos de tão nobre feudo possam ter acesso ao que há de mais refinado nas letras contemporâneas.

FILISTEU — Como responde o senhor às acusações de conivência com a dominação ianque do Terceiro Mundo através do ofício cinematográfico, sendo que o modelo de subvenção estatal ao cinema está com os dias contados, restando apenas o ultracapitalista protótipo hollywoodiano como alternativa viável para a sobrevivência da Sétima Arte?

RODRIGO — O cinema é a arte dos burgos por excelência. Querer produzi-lo em regimes igualitários e totalitaristas é mera blasfêmia. Reconheçamos o poder de manipulação da indústria e tornemos todos escravos da imagem.


Grota ganhando seu terceiro Oscar pelo filme “O Homem que Perdeu o Reflexo”, e a ganhadora do Oscar de melhor atriz nesse filme, a dinamarquesa Hamletícia Ericson.

FILISTEU — Qual a sua réplica aos que afirmam ser Londrina por demais insignificante cultural e historicamente para fazer jus a um filme sobre sua arquitetura e outros aspectos visuais e artísticos?

RODRIGO — Queria fazer um filme sobre o nada, daí a escolha por tão aconchegante vila.

FILISTEU — Depois de filmar Londrina em 3 Movimentos, quais são os seus planos para o futuro, se é que o senhor realmente acredita que terá algum futuro?

RODRIGO — Quero documentar a persona mais digna de interesse em Londrina: mr. Billy, vulgo Antonio Casemiro Belinati. Adoro os vilões, assim como aprecio o sadismo no deus dos católicos. Os tessalonicenses já diziam: procure o algoz; as vítimas enfastiam!

FILISTEU — Na literatura como na direção de cinema, o que o senhor pretende expressar? Sua opção preferencial por Sartre em detrimento de Kant? Seu anti-conformismo contra o uso de gravata? Seu engajamento político contra o emprego de produtos tóxicos nas rações para suricatas? Ou é tudo só para impressionar as mina mesmo?

RODRIGO — Uma reação prazerosa seria provocar a crítica literária de Jeová. Como ele sempre está ausente no msn messenger, nunca me detive em tal diálogo. No mais, o de sempre: distrair a angústia e relaxar a razão, via garotas.

FILISTEU — No tocante a mulheres (ou garotas, como prefere o senhor), não é fato que o seu notório apego por musas, deusas e seres mitológicos afins suscita, via de regra, expectativas irreais que se transformam em desilusão diante de mulheres reais, isto é, de carne e osso, 40 litros de água, 8 kg de gordura, 4 kg de cal, 127 g de açúcar e 12 g de ferro?



RODRIGO — A realidade me interessa por dois ou três segundos. Esta entrevista, por exemplo, só está ocorrendo até a décima primeira pergunta pois estamos em um meio virtual. Como dizia o amigo Graham, a inocência é a melhor forma de insanidade.

Publicado em 23 de março de 2004 às 18:54 por filisteu

Cenas do filme do Grota

Do Arrigo Grota, bem entendido. O documentário “Sabáudia em Três Movimentos” está com estréia nacional prevista para 2005, no dia 30 de fevereiro, dia de São Zero, santo padroeiro de Sabáudia.

Eis o Padre Martelo, pregando, aliás, cantando o refrão da trilha sonora do filme: “Erguei as patas e dai glória a Suri!...”


Ao som da música, fiéis dançam e autoflagelam-se para celebrar a Paixão de Suri.



Esta é uma tomada do parque municipal “Jardim do Édenilson”, fundado por Édenilson Amadeus, um antigo prefeito de Sabáudia.



Arrigo Grota conseguiu captar um precioso momento em que o Apóstolo Zero pratica a caridade suristã...

Publicado em 12 de março de 2004 às 02:04 por filisteu

O irmão do Sr. Grota



Tentei conseguir uma entrevista com o escritor-cineasta-londrinense RODRIGO GROTA, meu egrégio padrinho, mas ele se recusou a responder às minhas perguntas. Só me restou então entrevistar o irmão gêmeo dele, o também escritor-cineasta-londrinense ARRIGO GROTA (foto), que reside atualmente em Sabáudia.

FILISTEU — A semelhança entre vocês dois vai além da física?

ARRIGO GROTA — Eu nem acho que a gente se parece fisicamente, embora tecnicamente sejamos gêmeos idênticos perfeitos. Somos diferentes em tudo. Pra começar, ele é o irmão gêmeo, eu sou o irmão gênio.

FILISTEU — Mas os gêmeos têm reputação de serem muito unidos.

ARRIGO GROTA — Não, pelo contrário. Já no útero da nossa mãe a gente brigava por espaço. Crescemos brigando. O Rodrigo sempre teve inveja do meu sucesso com as mulheres. Londrina não era grande o bastante para os dois, então fui para Sabáudia.

FILISTEU — Mas vocês seguiram até o mesmo ofício.

ARRIGO GROTA — Sim, mas por motivos totalmente diversos. Eu faço literatura e cinema porque sou um gênio, o Rodrigo faz para conseguir garotas.

FILISTEU — Fale sobre sua literatura.

ARRIGO GROTA — Desde os catorze anos escrevo um livro por ano. Estou agora com vinte e quatro.

FILISTEU — Antes desta entrevista procurei seus 10 livros exaustivamente em todas as 3 livrarias de Londrina, e não encontrei nenhum.

ARRIGO GROTA — Eu disse que escrevi 10 livros, não que publiquei algum. Não sou um escritor comercial. Quando escrevo um livro, o faço para minha satisfação e realização pessoais, não para que outros o folheiem e digam com cara de idiotas: o que será que o autor quis dizer com isso?

FILISTEU — Sente o senhor algum desconforto com o rótulo “escritor-e-cineasta”, como tratando-se de um termo híbrido e de resultados frankensteinianos, semelhante a “modelo-e-atriz”, por exemplo?

ARRIGO GROTA — Não mais do que o senhor com os rótulos de entrevistador-pentelho ou rolha-de-poço.

FILISTEU — O senhor está preparando algum outro livro? Se está, pode falar a respeito dele?

ARRIGO GROTA — Estou, sim. O Rodrigo, que vive ansioso para que eu me rebaixe como ele fez, me convenceu a mandar os originais a um editor judeu amigo dele, mas felizmente este o recusou. O título é: “Roube este Livro”.

FILISTEU — Acho que posso entender por que ele foi recusado.

ARRIGO GROTA — Que me importa o que você entende ou deixa de entender? Pensei que o entrevistado aqui fosse eu!

FILISTEU — Sim, claro, me desculpe. Não acredita o senhor na afirmação atribuída ao poeta alemão Eingebildet Jemand de que a publicação do segundo livro é o triunfo da esperança sobre a experiência?

ARRIGO GROTA — Eingebildet Jemand nunca disse isso. Eingebildet Jemand nunca disse coisa alguma, aliás, já que esse nome, como você sabe muito bem, significa “alguém imaginário”. Você vai parar com essas pegadinhas idiotas ou eu vou ter que criar para o meu próximo filme o personagem de um entrevistador gordo e veado chamado Filisteu?

FILISTEU — Bem lembrado: por que o senhor não fala sobre os seus filmes?

ARRIGO GROTA — Posso dizer que você não vai vê-los em cartaz tão cedo nos 4 cinemas de Londrina.

FILISTEU — Ah, entendo, o senhor também os faz só para si próprio, não é?

ARRIGO GROTA — Não. Ao contrário da minha literatura, meus filmes são estritamente comerciais. Acontece que ainda não os rodei. Eles estão na minha cabeça. Exceto pelo primeiro, que já está em fase de produção.

FILISTEU — Fale um pouco sobre ele.

ARRIGO GROTA — Será um documentário chamado “Sabáudia em Três Movimentos”, e tratará da história da cidade nos seus três principais eventos: sua fundação pelos irmãos Amadeus e Odeiadeus, a Paixão de Mestre Suri, e a descoberta da roda em Sabáudia, há quatro anos. A música tema do filme será cantada pelo saltitante Padre Martelo, da Igreja de São Zero Apóstolo.

FILISTEU — Suas influências cinematográficas são as mesmas do seu irmão Rodrigo? Kubrick, Fellini, Bergman...

ARRIGO GROTA — Deus me livre! Só os nomes desses caras já me dão sono. Meus mestres são Walt Disney e Steven Spielberg.

FILISTEU — Qual o seu filme favorito?

ARRIGO GROTA — O filme que me incentivou a ser cineasta foi “Free Willy”.

FILISTEU — O senhor dá licença para eu ir ao banheiro vomitar e já volto?

ARRIGO GROTA — Esta entrevista já deu mesmo o que tinha que dar.

Publicado em 08 de março de 2004 às 11:13 por filisteu

História da minha vida

Publicado em 06 de março de 2004 às 01:30 por filisteu

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