Era igual a qualquer outro escritório, todo em tons acinzentados: paredes, teto, carpê, tudo cinza.
O homem sentado à minha frente parecia mimetizar-se com a sala, ele também todo de cinza, paletó, gravata, grisalho, japonês...
— Pode-se dizer, respondendo à sua pergunta, Sr. Filisteu — dizia ele com voz cinza —, que o tipo de consultoria que prestamos é aquela dirigida a auto-extintivos em potencial.
— Auto-extintivos?
— Um termo que cunhamos em substituição ao algo pejorativo “suicidas”.
— Quer dizer que vocês induzem pessoas ao suicídio...
— De modo algum. Não induzimos as pessoas que nos procuram a coisa alguma que elas já não estejam de antemão inclinadas a fazer. A partir daí, apenas trabalhamos a opção pela auto-extinção como uma opção válida, dentre outras. Sem hipocrisia, moralismo nem falso otimismo.
— E de que forma vocês vendem o suicídio, ou auto-extinção, como “opção válida”, Sr. Botura?
— Gostaria de esclarecer, antes de qualquer coisa, Sr. Filisteu, que não vendemos coisa alguma, somos uma organização sem fins lucrativos. Todos aqui são voluntários, inclusive eu.
— Queira desculpar. De que forma vocês apresentam, então, o suicídio como “opção válida”?
— Em primeiro lugar, deixamos que o cliente se sinta à vontade para falar no assunto, sem encará-lo como tabu. Em qualquer outro meio que não o da nossa organização, basta a pessoa dizer que pensa em suicídio para que todos ao seu redor o encarem como louco, maníaco-depressivo ou tentem freneticamente dissuadi-lo de sequer contemplar tal pensamento. Os seus entes queridos reagirão escandalizados, pensando egoisticamente não no sofrimento dele, mas no seu próprio sem ele. Um religioso de qualquer profissão o ameaçará com a culpa, com a danação eterna num inferno que pintará sempre mais horrendo que o da terra. Um psiquiatra o ouvirá, mas tomará tal inclinação como desvio mórbido e esforçar-se-á para evitar a todo custo que ela se concretize, inclusive drogando o paciente ou até internando-o num sanatório e coibindo-lhe os movimentos, tudo para impedi-lo de exercer sua sagrada prerrogativa de decidir pela própria extinção.
— E, depois que vocês ouvem o seu paciente...
— Cliente, caro Sr. Filisteu. Não somos médicos, portanto não temos pacientes.
— Ah, sim, claro. Depois de ouvir o seu cliente, deixando-o à vontade para manifestar apreço pela idéia de suicídio... o que acontece?
— Expomos de forma sumária as muitas teorias sobre o além-túmulo, elaboradas pelos filósofos e metafísicos de toda as épocas, mas sem manifestar aprovação ou desaprovação por qualquer uma delas. Cabe ao cliente fazer a sua escolha. Basicamente é a isso que nos propomos: ajudar pessoas a sentir-se livres para escolher, e que se sintam bem com sua opção. Depois da parte teórica, fornecemos orientação sobre disposições legais, por exemplo, o que acontecerá aos dependentes do cliente caso este se auto-extinga, qual a forma de partir deste mundo causando o mínimo de transtorno aos que ficam, esse tipo de coisa.
— Certo. E depois?
— Em seguida vem a terceira etapa da nossa consultoria: assessoria técnica. O cliente é orientado quanto ao melhor meio para executar sua auto-extinção. A maioria já vem com uma idéia pré-concebida: revólver e veneno são os preferidos, mas nem de longe os melhores. Tiro provoca muito barulho e sujeira, enquanto veneno, ao contrário do que se vê nos filmes, raramente é indolor, e pior ainda, as mais das vezes não é letal, dependendo da dose ingerida, da saúde do cliente etc. Para os clientes que vivem sós (a maioria) recomendamos, por exemplo, auto-extinção por inalação de gás. Dispomos de um catálogo que contém oitenta e três tipos de gás letal, a maioria podendo ser obtida pela simples queima de substâncias obteníveis em qualquer farmácia.
— Vocês não consideram, então, Sr. Botura, a vida o mais precioso dos bens?
— Somos a favor da vida, não do sofrimento. Por que considerar sagrada ou preciosa uma existência sem dignidade, esperança ou perspectiva? Só porque é a única que conhecemos? Um pássaro criado desde o nascimento numa gaiola deve amar a gaiola só porque não conhece o lado de fora dela? Uma vida insuportável nada é além de uma morte postergada.
— Qual o embasamento ideológico de vocês?
— Não nos inspiramos no Romantismo europeu do século XIX, nem na Rosa Negra, nem em qualquer movimento de apologia ao suicídio. Não somos uma associação religiosa, médica, filosófica ou artística, mas tão-somente humanitária. O que não impede que sejamos norteados pelo pensamento de um grande filósofo, Nietzsche, que diz em
Além do Bem e do Mal: “A idéia do suicídio é um potente meio de conforto: com ela superamos muitas noites ruins”.
— O senhor disse que a organização não tem fins lucrativos; como ela se mantém?
— Somos mantidos com contribuições de ex-clientes.
— Mas os ex-clientes de vocês não estão todos mortos?
— Pelo contrário, uma parcela mínima deles põe em prática sua predisposição inicial. Tamanho é o conforto que proporciona a contemplação da auto-extinção, consoante Nietzsche.
— Mas é este, então, o propósito filantrópico oculto de vocês? Dissuadir os clientes de seu propósito autodestrutivo, ou auto-extintivo, como diria o senhor?
— De maneira alguma. Não cabe a nós fornecer qualquer tipo de assistência terapêutica; como eu disse, tratamos com pessoas já decididas, e de moto próprio, a deixar este “Vale de Lágrimas”, mas que enfrentam dificuldades, culpa ou medo em seguir adiante. Os que ainda não chegaram ao seu grau mais crítico de depressão ou desespero nada têm a fazer aqui na nossa organização.
— Não obstante isso, por um paradoxo extraordinário, é ao facilitar o acesso à auto-extinção que, segundo o senhor, esta deixa de parecer tão atraente.
— Exatamente. Para o senhor ter uma idéia, Sr. Filisteu, em quatro anos de existência apenas vinte e cinco clientes, dentre milhares, efetivamente levaram a cabo, com nossa assistência, a resolução de remover-se deste mundo. Eram todos portadores de enfermidades terminais que os faziam sofrer muito fisicamente.
— Os vinte e cinco eram homens?
— Apenas duas mulheres. Homens toleram a dor física menos que mulheres.
— Mas, de um modo geral, a qual sexo pertencem as pessoas que recorrem a vocês em maior número?
— Ao sexo masculino, é claro.
— Por quê, Sr. Botura?
— Porque basicamente o que proporcionamos é a contemplação da auto-extinção, e o senso prático das mulheres impede-as de entregar-se à contemplação da mesma forma que os homens. Em se tratando de idéias, a adesão masculina é sempre maior. Além disso, a auto-extinção é um ato essencialmente individualista, e o individualismo também é mais presente nos homens do que nas mulheres.
— O que acontece então ao paciente, digo, ao cliente?
— As consultas se sucedem; o cliente começa a ficar tão empolgado fazendo planos para a própria morte, que nas mais das vezes, conforme já falei, recupera o entusiasmo pela vida e desiste de se auto-extinguir. Não importa se é para a sua morte ou para a sua vida que ele faz planos: fazer planos equivale a desfrutar. Tivemos no ano passado um cliente que chegou aqui em profundo estado de depressão e aceitou nossa sugestão de auto-extinção por inalação de gás. Pois não é que ele encontrou no preparo de gases letais a paixão da sua vida e agora está cursando a faculdade de química?
— Não diga!
— Há, porém, os casos em que tal não ocorre, e a resolução auto-extintiva permanece inexorável. Em tais casos, nossa assistência é mantida até o último dia de vida do cliente, inclusive no tocante a arranjos testamentários e fúnebres. Tecnicamente falando, é-nos indiferente se a pessoa vive ou não; importa-nos apenas que não sofra desnecessariamente.
— Financeiramente falando, no entanto, não deve ser-lhes tão indiferente.
— Sim, é. Pois os vivos que nos mantêm constituem uma parcela mínima dos ex-clientes que optaram por uma nova vida após ter-se consultado sobre a morte.
— Vocês nunca tiveram problemas com a justiça? Algum familiar de um auto-extinto assessorado por vocês que já os tenha processado criminalmente?
— Ah, sim, muita vezes. Por isso procuramos cercar-nos de todas as precauções. Por exemplo, nunca assessoramos menores de idade ou pessoas incapazes de responder pelos próprios atos, e o cliente nos desonera por escrito de toda responsabilidade pelo que possa vir a lhe ocorrer. Jamais fornecemos outra coisa além de informação; os aparatos e substâncias eventualmente empregados pelo cliente devem ser adquiridos por ele. Mesmo nossas apostilas e catálogos só podem ser consultados em nossas dependências, jamais vendidos ou cedidos.
— E a qual classe social pertencem, majoritariamente, os seus clientes?
— Predominam os das classes A e B. Ninguém da classe C e D. O senhor sabe, Sr. Filisteu, as pessoas mais pobres raramente se suicidam. São infelizes demais para isso. Já o perfil típico do auto-extintivo é o de alguém que está infeliz, não de alguém que é infeliz.
— A natureza peculiar da organização de vocês não atrai desocupados e gozadores que a fazem desperdiçar tempo e verbas?
— Atrai, sem dúvida; mas sabemos distinguir os verdadeiros auto-extintivos daqueles que só buscam atenção ou entretenimento. A pessoa realmente determinada a dar cabo da própria existência não corresponde ao clichê cinematográfico do suicida: pálido, desgrenhado, cambaleante, não. O auto-extintivo convicto não busca compaixão alheia, por isso não apela no visual, ou no desleixo do mesmo.
— Qual a atitude dele ao recorrer a vocês?
— Em geral faz muitas perguntas; nada mais natural. Via de regra finge-se apenas curioso; zeloso com a própria morte, não pretende discuti-la levianamente. Quando por fim adquire a confiança de que não receberá da organização ou do seu representante compaixão nem solicitude, mas tão-somente interesse, abre o jogo, e o processo tem início.
Ficamos em silêncio. Ele parecia ter todo o tempo do mundo.
— Muito bem — falei; após nova pausa, prossegui: — Quero que pareça natural ou acidente. Meus desafetos não merecem a alegria de acreditar terem sido a causa. Ouvi falar de um gás que paralisa todas as funções, causando a morte como um sono profundo. Efeito semelhante ao da morfina. Foi usado anos atrás por uns terroristas num teatro, na Rússia. Sabem qual é?